sábado, 10 de abril de 2010

Quando a chuva é real


Chovendo
Chovendo... Chovendo... umas 19:00, carros e mais carros passando pela Av. Manoel Dias da Silva com os seus faróis ditando um ritmo interessante com a presença da chuva.
E eu lá em pé, dentro do abrigo de bus, esperando o meu ônibus Campo Grande R1 chegar.

A chuva se espalhava no chão e se iluminava com os faróis do carro, se espalhava e se iluminava...
Os carros param,
pessoas atravessam a faixa com a maioria de seus guarda-chuvas pretos, sendo iluminadas e sombreadas dessa forma com a luz...
Apenas se nota o som da chuva agora, apenas o espalhar da chuva, um bom silêncio, um bom som...
Os carros começam a acelerar... uma senhora corre para atravessar com o seu guarda-chuva florido arregaçado e o seu vestido aparentemente molhado colado na pele...
Novamente o espalhar e o iluminar... E do outro lado da calçada, um homem, sem guarda chuva, agoniado, esperando conseguir chegar ao outro lado.

A chuva vai diminuindo... diminuindo... diminuindo cada vez mais... E o aglomerado de corpos grudados dentro do mesmo abrigo de ônibus que eu, vai se dissipando, vai saindo, e percebendo pelos faróis, que a chuva acabou... Resolvi sair um pouco daquele espaço, mas continuava ali... esperando

Parei pra pensar no horário nessa hora, pensei no trabalho que tinha que entregar, no livro que tinha que devolver, no livro que tinha que ler, no filme que tinha que ver, no meu ônibus Campo Grande R1, no meu tênis molhado que ia dar um chulé do caralho depois... Numa gota que tinha acabado de cair no meu rosto

Numa gota... Na chuva que novamente se iniciava.
A chuva voltou... Com muita força, mais forte que antes.

As pessoas corriam, se iluminavam com os faróis do carro e se molhavam... Um cachorro todo molhado, uma mulher de salto, um garoto de skate, um cara com uns módulos de cursinho e cadernos na cabeça... todos correndo em direção ao mesmo abrigo de ônibus que eu estava...
E comecei a processar toda aquela cena, em câmera lenta em minha mente.
E o foda que toda essa cena era bonita... Foda mesmo, eu ficava admirado por ver aquilo

Foi na hora que eu falei pra mim mesmo: “Essa cena tem uma fotografia linda”
Que eu me lembrei de uma frase que Sartre disse:

“O real jamais é estético”

E percebi que aquela cena que desenvolvi, que presenciei, seria esquecida como tantas outras... Aquela “fotografia” tão foda que eu pensei, era apenas o real, o dia-a-dia... Se no momento, eu estivesse com uma câmera, filmando, fotografando, registrando de alguma forma, aí sim seria estético, aí seria registro, aí seria arte...


Quando numa arte se percebe que há a realidade

Quando numa realidade se percebe que há arte

Não é estético, é foda.

2 comentários:

Subliterato disse...

tenho pirado esses dias pensando na luz... kkk, e luz e água sempre combinam... tem outra frase que acho
foda e esteticamente interessante é a do paul klee - ´´A arte não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver!´´

nos faz !

Tassia disse...

Carlinhos,
Será por isso que você durante a viagem dormia com a camera ligada na mão? Hum... isso, pelo menos, indica que você "voltou ao normal" rsrs...

às vezes é legal que as cenas mais belas sejam registradas apenas em nossa mente mesmo. Assim teremos algo incompartihável que será vivo dentro de nós até ser substituído por outras cenas ainda mais lindas ou ainda mais incompartilháveis...

e o cachorrinho molhado tbm foi se abrigar no ponto de onibus foi? coitadinhoooo