quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A casa própria de Esquecimento e de Lembrança

Uma jovem senhora paraguaia, bastante simpática, ouvia empolgada a história que eu contava a respeito de uma viagem pela America Latina de ônibus. Ela numa livraria no meio de uma praça no centro de Assunção, se preparava para responder algumas perguntas para a minha câmera.
Após a entrevista, ela fala:
- É só assim mesmo pra você lembrar que falou comigo.

Eu realmente não entendi ao certo o que ela queria dizer com aquilo. E ela logo percebeu isso:
- Você vai passar por tantos países, vai conhecer, conversar com tantas pessoas, ver tantos lugares, que sua memória não vai guardar uma conversa com uma velha paraguaia assim... Sua memória vai selecionar o que merece ser salvo.

Eu rir e falei um simples:
- Que nada.

Que de certa forma, foi uma resposta que deixou quase em aberto a indagação daquela simpática senhora, pois eu realmente não sabia o que veria pela frente.
Paraguai era o primeiro país, e tudo era muito novo, fresco, envolvente.

7 países depois.
Eu não me recordava mais da jovem senhora paraguaia.
De fato ela estava certa. Porém...

No percurso dentro do ônibus, indo de Machala (cidade do interior do Equador) para Guayaquil (uma das cidades mais importantes do Equador) tive contato com um livro de uma grande colega minha de viagem, chamada Sarah. O livro se chama, Dia e Noite de Amor e de Guerra, de Eduardo Galeano, e me deparei com o seguinte trecho:

“A memória guardará o que valer a pena.
A memória sabe de mim mais do que eu.
E ela não perde o que merece ser salvo”

De supetão eu lembrei da jovem senhora paraguaia, que tinha profetizado algumas palavras para mim, e fiquei indignado de ter tido a audácia de ter que confirmar a sua teoria, deletando-a da minha mente para ocupar outras coisas mais intensas talvez.

Mas até que ponto isso é esquecer? Eu esqueci, mas também lembrei.
Quantas coisas nesse percurso de viagem pela America Latina, eu já esqueci... Mas lembrarei em algum momento da vida?

O cérebro, ou melhor, a memória sobrevive de associações... E cada palavra, frase, imagem, conversa, cheiro, cada sensação que sentimos, alimenta a fonte e o repertorio da memória e as vezes do esquecimento também, sobrando nesses casos, apenas a lembrança pura, simples e vaga do sentir.

Para lembrarmos de algo, tenhamos que sempre, esquecer.

3 comentários:

Deco Luís disse...

Que reflexão maravilhosa!
Que continuemos a lembrar de esquecer (para lembrar depois) o que vivemos nesta viagem. Já me sinto parte dessa viagem pessoal sua Carlos. Não somos mais individuos latino-americanos, mas um conjunto de várias percepções de um mesmo continente. Que nossas memórias também sejam compartilhadas!
Continue a postar.
André Luís

Subliterato disse...

o desafio maior que me persegue companheristicamente também...
devemos fazer da vida, da literatura e do cinema espaços essencialmente alimentados pelos sonhos, que por excelência são os melhores arquivos e misturadores das recordações.

Davi J. Fontoura Solla - www.inulat.ufba.br disse...

Incrível como existem percepções que podem ser alcançadas a partir de diferentes olhares.
Não é preciso a medicina e um microscópio eletrônico para que percebamos que a mente e a memória são feita de conexões, associações... não só de neurônios, muito mais que isso, de sensações, de emoções.
Muito bom!